domingo, 8 de janeiro de 2012

Sepultando Um Natimorto - I.

Já dizia meu velho avô: “Contra factum non argumentum est.”

A coisa mais fácil do mundo seria o Sr. Thiago Fiago reconhecer o óbvio e publicar em seu blog uma notinha: “De fato, alterei o sentido das palavras do sr. Wellington Monteiro e da Constituição Federal, e com isso arrisquei trazer dano injusto à sua reputação. Desculpe o vexame. Assunto encerrado.”
Lembro-me de ter cometido pecado similar, não por intenção maliciosa mas por genuína ignorância palpiteira, contra o já falecido Prof. Najib Almodovar (meu professor de geografia nos tempos de colégio). Repassei levianamente uma história que ouvira de gente da colégio, acusando-o de haver torturado sua esposa. Ele veio falar comigo, provou que eu havia feito caca, e não tive remédio senão pedir desculpas em público, o que não é desonra nenhuma, é aliás o contrário de uma desonra.

Mas o Sr. Thiago Fiago tem aquela inflexibilidade do mentiroso obstinado, que, quando pego de calças na mão, se enrijece de orgulho e, subindo um pouco mais alto na escala da sua santidade imaginária, dispara contra o queixoso uma saraivada de dogmas jurídicos perfeitamente alheios ao caso e, por isso mesmo, tanto mais impressionantes.

Na platéia de seus leitores (que los hay, los hay), não faltaram vozes de apoio para secundá-lo, repetindo o truque com fidelidade admirável, contornando meticulosamente o fato concreto e desdobrando-se nas mais lindas considerações doutrinais contra o conhecimento alheio às leis constitucionais, a liberdade de consciência, o modernismo teológico e não sei mais quantas coisas das quais me imaginavam o representante e porta-voz oficial do Movimento Gay.
É como se eu, surpreendido pela empregada de casa em flagrante punheta no sofá da sala, convocasse meus amigos para esmagar a infeliz testemunha sob uma tempestade de citações da Suma “liberdade de sexualidade”.

É um tanto deprimente ter de lembrar a essa legião de sábios advogados constitucionais (tsc.) que os defeitos da vítima, reais ou imaginários, não autorizam ninguém a infringir contra ela o Oitavo Mandamento. Aliás, se cometi tantos erros, se tão rico e variado é o repertório dos meus pecados, para que inventar mais um, acusando-me logo daquilo que não fiz?

Se o Sr. Thiago Fiago confessasse ter lançado contra mim uma acusação falsa, de me chamar de “poser de jurista”, de expor a falsa situação endêmica de homofobia desse país, de citar a Constituição do país mais ateu das américas (Canadá) para explicar (leia-se dissimular) o Golpe de Estado que o STF, regido por estelionatários, aplicou nesse país e no povo brasileiro ao contradizer a Constituição que define apenas o casal composto por HOMEM E MULHER como núcleo familiar, que em nenhum momento dá vazão a outro núcleo, distorcer desavergonhadamente o preceito constitucional e maqueá-la com a falsa pregação dos “direitos da pessoa humana”, recuperaria ao menos um pouco de credibilidade para alegar, em seguida, que as demais acusações eram verdadeiras (tsc.). Agindo como agiu, só conseguiu desmoralizar a todas elas de uma vez, emporcalhando-as com a mancha do falso testemunho e poupando-me o trabalho de desmentir, uma a uma, todas as lutas que a comunidade gay diz participar para poder ter direitos reconhecidos e viver com dignidade.

Nova demonstração de sua renitente soberba forneceu-nos ele ao publicar em seu blog um malfadado artigo em que, supostamente, rebate o meu artigo sobre o Golpe de Estado e, segundo ele, seria um ¨espancamento intelectual¨, sem mencionar nem por alto o fato de que seu artigo trazia consigo a total desmoralização do próprio autor enquanto tentativa de humilhar um “pobre coitado poser de jurista”.
Não custava nada o sr. Thiago Fiago reconhecer: “É, eu estava errado. Santos dizem palavrões, sim. O “poser de jurista” não está necessariamente excluído da glória eterna do “Brasil sem homofobia” só por ter expressado suas reservas contra os pontos de vista do meu grupo.”

Mas não. Ele não pode dar o braço a torcer. Não pode recuar um só milímetro da pose de infalibilidade, ostentada em atos e feitos que as proclamações verbais de humildade não atenuam nem um pouco. Anunciando o seu artigo sem comentários, dá a entender que ele não significa nada, e sai assobiando com o ar mais inocente do mundo, como se a coisa não fosse com ele.

Até onde irá esse professor de doutrina na sua obstinação insensata de mostrar que na vida real, fora da confortável esfera das citações eruditas, não entende uma só palavra dos mandamentos divinos?

PS. – Ao fim de uma eruditíssima nota na qual novamente foge do fato para o reino encantado das discussões doutrinais, o Sr. Thiago Fiago, anunciando desmantelar um “sofisma”, declara:

“Se, como alguns querem fazer crer, o tratar os outros por nomes obscenos se justificaria pelo fato de Wellington Monteiro tê-lo feito a alguma altura de sua vida, então também o cometer adultério se justificaria pelo fato de Santa Maria Madalena tê-lo cometido a alguma altura de sua vida.”

Sofisma, mesmo, é isso. A minha pessoa usou de argumentos plausíveis, dentro do campo da razão, numa polêmica contra a rebelião Fiagiana contra a realidade, e não consta que Sta. Maria Madalena cometesse adultério em defesa da Igreja. Thiago Fiago, largue de palhaçada teológica-jurídica e arranje um emprego decente.

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