Em comparação com a perseguição anticristã no mundo, a suposta discriminação dos gays é,
na melhor das hipóteses, uma piada. Ao longo dos últimos cem anos, nas
democracias capitalistas, nenhum homossexual jamais sofreu, por ser
homossexual, humilhações, perigos e danos comparáveis, por exemplo, aos
que a militância gay enlouquecida vem impondo ao escritor evangélico brasileiro Júlio Severo pelo crime de ser autor do livro O Movimento Homossexual.
A discriminação e marginalização dos homossexuais é real e grave nos
países islâmicos e comunistas, especialmente em Cuba, mas as alianças
políticas do movimento gay fazem com que ele prefira se manter
calado quanto a esse ponto, descarregando suas baterias, ao contrário,
justamente em cima das nações que mais mimam e protegem os homossexuais.
Dois livros que recomendo a respeito são “Gay New York: Gender, Urban
Culture and the Making of the Gay Male World, 1890- 1940” , de George
Chauncey, New York, Basic Books, 1994, e “Bastidores de Hollywood: A
Influência Exercida por Gays e Lésbicas no Cinema, 1910- 1969” , de
William J. Mann, publicado em tradução brasileira pela Landscape
Editora, de São Paulo, em 2002. Nenhum dos dois foi escrito por inimigos
da comunidade gay. Ambos mostram que, em dois dos mais importantes centros culturais e econômicos dos EUA os gaystinham
já desde o começo do século XX um ambiente de muita liberdade, no qual,
longe de ser discriminados, gozavam de uma posição privilegiada –
justamente nas épocas em que a perseguição a cristãos e judeus no mundo
subia às dimensões do genocídio sistemático.
Em hipótese alguma a comunidade gay pode se considerar
ameaçada de extinção ou vítima de agressões organizadas comparáveis
àquelas que se voltaram e voltam contra outros grupos humanos,
especialmente religiosos. Ao longo de toda a minha vida, nunca vi nem
mesmo alguém perder o emprego, no Brasil, por ser homossexual. Ao
contrário, já vi grupos homossexuais dominando por completo seus
ambientes de trabalho, incluisive na mídia.
Se, apesar disso, o sentimento de discriminação continua real e
constante, ele não pode ser explicado pela situação social objetiva
dessa comunidade: sua causa deve estar em algum dado existencial mais
permanente, ligado à própria condição de homossexual. Talvez esta última
contenha em si mesma algum estímulo estrutural ao sentimento de
rejeição. A mim me parece que é exatamente isso o que acontece, e por um
motivo bastante simples.
A identidade heterossexual é a simples tradução psíquica de uma
auto-imagem corporal objetiva, de uma condição anatômica de nascença
cuja expressão sexual acompanha literalmente a fisiologia da reprodução.
Ela não é problemática em si mesma. Já a identidade homossexual é uma
construção bem complicada, montada aos poucos com as interpretações que o
indivíduo dá aos seus desejos e fantasias sexuais. Ninguém precisa
“assumir” que é hetero: basta seguir a fisiologia. Se não houver nenhum
obstáculo externo, nenhum trauma, a identidade heterossexual se
desenvolverá sozinha, sem esforço. Mas a opção homossexual é toda
baseada na leitura que o indivíduo faz de desejos que podem ser bastante
ambíguos e obscuros.
A variedade de tipos heterogêneos abrangidos na noção mesma de
“homossexual” – desde o macho fortão atraído por outros iguais a ele até
o transexual que odeia a condição masculina em que nasceu – já basta
para mostrar que essa leitura não é nada fácil. Trata-se de perceber
desejos, interpretá-los, buscar suas afinidades no mundo em torno,
assumi-los e fixá-los enfim numa auto-imagem estável, numa “identidade”.
Não é preciso ser muito esperto para perceber que esse desejo, em todas
as suas formas variadas, não é uma simples expressão de processos
fisiológicos como no caso heterossexual (descontadas as variantes
minoritárias deste último), mas vem de algum fator psíquico
relativamente independente da fisiologia ao ponto de, na hipótese
transexual, voltar-se decididamente contra ela.
A conclusão é que o desejo em si mesmo, o desejo consciente,
assumido, afirmado – e não o desejo como mera manifestação passiva da
fisiologia –, é a base da identidade homossexual. Mas uma identidade
fundada na pura afirmação do desejo é, por sua própria natureza, incerta
e vacilante, porque toda frustração desse desejo será vivenciada não
apenas como uma decepção amorosa, mas como um atentado contra a
identidade mesma. Normalmente, um heterossexual, quando suas pretensões
amorosas são frustradas, vê nisso apenas um fracasso pessoal, não um
ataque à heterossexualidade em geral. No homossexual, ao contrário, o
fato de que a maioria das pessoas do seu próprio sexo não o deseje de
maneira alguma já é, de algum modo, discriminação, não só à sua pessoa,
mas à sua condição de homossexual e, pior ainda, à homossexualidade em
si.
É por isso que os homossexuais se sentem cercados de discriminadores
por todos os lados, mesmo quando ninguém os discrimina, no sentido
estrito e jurídico em que a palavra discriminação se aplica a outras
comunidades. A simples repulsa física do heterossexual aos atos
homossexuais já ressoa, nas suas almas, como um insulto humilhante,
embora ao mesmo tempo lhes pareça totalmente natural e improblemática,
moralmente, a sua própria repulsa ao intercurso com pessoas do sexo
oposto e até com outro tipo de homossexuais, que tenham desejos
diferentes dos seus. Tempos atrás li sobre a polêmica surgida entre gaysfreqüentadores
de saunas, que não admitiam a presença de transexuais nesse ambiente
ultracarregado de símbolos de macheza. “Tenho nojo disso”, confessavam
vários deles. Imagine o que diria o movimento gay se declaração análoga viesse de heterossexuais. Seria um festival de processos. Mas o direito do gay a
um ambiente moldado de acordo com a forma do seu erotismo pessoal não
parecia ser questionável. Nem muito menos o era o seu direito à repulsa
ante os estímulos adversos – a mesma repulsa que o macho hetero sente
ante a hipótese de ir para a cama com homos e transexuais, mas que neste
caso se torna criminosa, no entender do movimento gay.
Em suma, para
os gays , expressar a forma específica e particular dos seus
desejos – e portanto expressar também a repulsa inversamente
correspondente – é uma questão de identidade, uma questão mortalmente
séria, portanto um “direito” inalienável que, no seu entender, só uma
sociedade opressiva pode negar. A repulsa do hetero ao homossexualismo,
ao contrário, é uma violência inaceitável, como se ela não fosse uma
reação tão espontânea e impremeditada quanto a dos gays machões pelos
transexuais pelados numa sauna (um depoimento impressionante a respeito
vem nas “Memórias do Cárcere” de Graciliano Ramos: o escritor,
insuspeito de preconceitos reacionários, tinha tanto nojo físico dos
homossexuais que, na prisão, rejeitava a comida feita pelo cozinheiro
gay). De acordo com a ideologia do movimento, só osgays têm,
junto com o direito à atração, o direito à repulsa. Os heteros que
guardem a sua em segredo, ao menos por enquanto. O ideal gay é
eliminá-la por completo. Mas isto só será possível quando todos os seres
humanos forem homossexuais ao menos virtualmente. Daí a necessidade de
ensinar o homossexualismo desde a escola primária.
Os objetivos do
movimento gay vão muito além da mera proteção da comunidade
contra perseguições, aliás inexistentes na maioria dos casos, a não ser
que piadinhas ou expressões verbais de rejeição constituam algo assim
como um genocídio. Instaurar o monopólio gay do direito à repulsa exige a reforma integral da mente humana. A ideologia gay é a forma mais ambiciosa de radicalismo totalitário que o mundo já conheceu.
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